• Gabriel Leite

5 filmes para conhecer o Cinema Marginal



Cena de Bang Bang (1971), de Andrea Tonacci


Cinema marginal é aquele que está à margem. Apesar desse rótulo desagradar Júlio Bressane e Rogério Sganzerla, dois de seus maiores representantes, ele pegou e hoje é usado para classificar filmes produzidos no Brasil entre 1967 e meados dos anos 70 caracterizados pelo baixo orçamento, pelo deboche e pela violência.


É comum abordar o cinema marginal como uma resposta ao cinema novo, seu contemporâneo. Mas essa visão não é a mais correta, visto que nomes do cinema novo como Glauber Rocha e Paulo César Saraceni foram referência para os marginais e vice-versa.


Porém, é válido ressaltar que o cinema marginal ia contra princípios do cinema novo, como o de construir um cinema genuinamente brasileiro. O cinema marginal não tinha essa preocupação. Os diretores deixavam as influências do cinema B norte-americano e da nouvelle vague francesa à mostra, desconstruindo-as para criar algo caoticamente novo. Os filmes do cinema marginal, com pouquíssimas exceções, foram duramente reprimidos pela ditadura militar por serem considerados “subversivos”. Atualmente são celebrados como grandes exemplos da vanguarda cinematográfica brasileira, aclamados tanto aqui, quanto no exterior.


Quer saber por onde começar a conhecer esse gênero tão vasto? Confira abaixo 5 filmes essenciais:

A Margem (1967, Ozualdo Candeias)


"Todas as fitas brasileiras contavam a história da classe média pra cima. Eu quis mostrar daí para baixo", Ozualdo Candeias definiu assim seu trabalho. Sua estreia “A Margem” traduz essa definição na forma de personagens esquecidos pela sociedade que vivem às margens do rio Tietê. A fotografia em preto e branco, os poucos diálogos e a presença do rio na trama estimulam comparações com “Limite”, de Mário Peixoto. Foi esse filme que batizou o movimento.

O Bandido da Luz Vermelha (1968, Rogério Sganzerla)


Livremente baseado na trajetória do serial killer brasileiro de mesmo nome, o primeiro longa-metragem de Rogério Sganzerla foi sucesso de público. A narrativa frenética com personagens caricatos e frases de efeito influenciada pelas histórias em quadrinhos tem poucos precedentes na história do cinema brasileiro. Paulo Villaça é o Bandido que sai cometendo crimes e despistando a polícia ao mesmo tempo em que tem um relacionamento com a prostituta Janete Jane, interpretada por Helena Ignez. A mistura de elementos noir, sátira e filme policial garantem uma experiência inesquecível.


Matou a família e foi ao cinema (1969, Júlio Bressane)


“Matou a família e foi ao cinema” foi considerado pelos militares parte de um plano de subversão nacional financiado pelo terrorismo, o que forçou Bressane a sair do Brasil. O longa de título autoexplicativo traz histórias que tem a violência como ápice: o filho que mata os pais e vai ao cinema, a moça rica que se isola com sua amiga, o preso político torturado, entre outras. Uma obra profundamente político que não apresenta soluções, somente desvela o absurdo que era o Brasil no fim dos anos 60. Foi refilmado por Neville D’Almeida em 1991.


Em fevereiro de 1970, Bressane, Rogério Sganzerla e Helena Ignez fundaram a produtora Belair. Em maio do mesmo ano já tinham produzido sete filmes, entre eles clássicos como “Copacabana Mon Amour” e "Cuidado madame", quando a perseguição do governo se intensificou e os três deixaram o Brasil.


O Ritual dos Sádicos (1969, José Mojica Marins)


Um psiquiatra vai a um programa de televisão para contar os resultados das suas experiências com o LSD em voluntários. Segundo ele, a perversão sexual é causada por uso de drogas ilícitas como o LSD, o que é contestado pelos especialistas do programa, entre eles o próprio José Mojica Marins. Depois, o psiquiatra reúne seus quatro pacientes, aplica as doses da droga e o que se segue é uma sequência surreal em cores que desafia o senso comum. “O Ritual dos Sádicos” (também conhecido como “O Despertar da Besta”) foi censurado pela Ditadura Militar e, por isso, só foi exibido comercialmente na década de 1980.



Bang Bang (1971, Andrea Tonacci)


O terceiro longa-metragem de Andrea Tonacci acompanha um homem que está fugindo de um trio de criminosos bizarros. Nós não sabemos o por quê da perseguição, apenas acompanhamos a neurose do personagem de Paulo Cesar Pereio à medida que os criminosos vão chegando perto dele.


“Bang Bang” não foi distribuído no circuito comercial, limitando-se a cineclubes e salas alternativas. Ainda assim, participou de uma mostra no Festival de Cannes e hoje está entre os 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, eleitos pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine).

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