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  • Gabriel Leite

A 4ª edição do Festival Ecrã foi a primeira online. E foi um sucesso

Festival de cinema experimental carioca migrou para a internet por conta da pandemia de COVID-19. Equipe e espectador avaliam o resultado da empreitada, que teve público de mais de 50 países


Em 2020 não houve Festival de Cannes. Pelo menos não da forma como o conhecemos. O mais tradicional festival de cinema do mundo, que teria Spike Lee como líder do júri nesta 73ª edição, foi cancelado devido à pandemia de COVID-19. A alternativa encontrada foi fazer uma seleção virtual de 56 filmes escolhidos entre mais de 2 mil inscritos, um número recorde para o festival. O Brasil foi representado por Casa de Antiguidades, longa de João Paulo Miranda.


Esse ano, nosso país viu festivais migrando para o virtual com resultados surpreendentes. Se por um lado a ausência da sala de cinema alterou a experiência cinematográfica, por outro tornou festivais acessíveis a um número de pessoas maior do que de costume.


A quarta edição do Festival Ecrã de Experimentações Audiovisuais, que ocorreu entre os dias 20 e 30 de agosto, foi a primeira vez que o evento carioca ocorreu totalmente online. O festival transferiu e expandiu suas categorias (Cinema, Instalações, Performances, Videoartes e Vídeos em VR/360°) para o ambiente virtual, o que dialogou com a proposta do evento: questionar os elementos primordiais do cinema.



“Os elementos primordiais seriam aqueles que compõem a sala de cinema, aqueles que ditam a experiência que o cinema, como indústria e espaço, não seria o mesmo sem: um local escuro, a projeção, a grande tela branca, a passividade do espectador, e se quiser exagerar um pouco, a estrutura narrativa daquilo que se vê”, explica a equipe do Ecrã por e-mail. Para isso, a equipe de curadoria se foca em filmes que “fogem ou expandem os padrões” do cinema tradicional.


A edição virtual foi um sucesso, com público de mais de 50 países, número acima do esperado pelos organizadores. O Ecrã é gratuito desde a sua primeira edição, contando com taxa de inscrição para filmes participantes, e é feito por um time de dez pessoas, além do apoio de instituições ligadas ao cinema e de eventuais editais. “Passamos e estamos no fim do processo do Impulso, edital de aceleração da parceria do Instituto Ekloos com o Oi Futuro, que durou quase um ano. E esta semana descobrimos que fomos aceitos na Lei de Incentivo da Secretaria de Cultura do Rio”, conta a equipe.


Tudo isso converge para a indagação principal da reportagem: um festival de cinema virtual é viável? Para os organizadores do Festival Ecrã, sim, apesar de haver perdas. “Você deixa de ter o contato e troca que somente um ambiente e evento físicos podem propor, mas ganha em território e abrangência.”


A possibilidade de se escolher quando, como e onde o público vai ver os filmes é também destacada por eles, e o cerne conceitual do Ecrã volta à tona: “Se você considerar o Cinema como espaço, aí sim pode não ser viável um festival de cinema à distância. Mas acreditamos que a noção de Cinema, o quanto a indústria já se modificou e como o espectador consome a mídia fílmica ou o vídeo já são indicativos de que o Cinema é mais do que se entende como seus elementos primordiais.”


Sertânia, um dos destaques da curadoria, é um dos filmes brasileiros mais celebrados da temporada


O estudante de comunicação social, editor de vídeo e curta-metragista Bruno Lisboa acompanha o Ecrã desde a segunda edição, quando o festival passou a ocorrer na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e concorda que esta edição desafiou o espaço tradicional do cinema. Mas tem uma opinião diferente sobre a experiência. “Eu acho que, pra um festival de filmes experimentais como o Ecrã, talvez a imersão seja um pouco comprometida. muito diferente assistir em casa um filme de James Benning, que consiste em assistir planos estáticos de gente lendo ou assistindo televisão, e assisti-lo no cinema. Em casa é tentador pausar, pegar o celular…”


Bruno destaca a curadoria. “Não tem curadoria de festival melhor que o Ecrã, um festival pequeno que é capaz de trazer grandes filmes todo ano.” Também aponta que foi fácil se organizar para assistir a quase todos os filmes (cerca de 60 títulos entre longas, médias, curtas e VR 360º), já que o festival durou dez dias.


Quando perguntado se compareceria a uma nova edição presencial do Ecrã, ele é enfático: “Eu iria facilmente. Moro perto da Cinemateca, tenho condição de ficar até tarde lá, tenho disponibilidade de ficar no barzinho pós-sessão.” E traz um dado importante. “Mas tenho muitos amigos da zona oeste e norte do Rio que não tem a mesma facilidade de deslocamento, e muitos outros de fora da cidade, que não viriam pra cá só pelo festival. Nesse sentido, um festival online é muito mais democrático.”

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